Um conto feito por mim, Cecília Visconti. Não sei se está bom, mas espero que gostem. :)
Pecar.
Mais uma vez...
Eu estava correndo para os braços que me eram fechados, não para aqueles
que me desejavam com tanto fervor. Por mais que eu queira escolher em que
braços ficar, acabo optando pelo seu - aquele pelo qual sonhei a vida inteira e
me fora negado. Quem sabe seja por me agradarem mais, quiçá por ter sido
rejeitado por suas mãos. A razão para seus braços serem tão convidativos está
encravada dentro de mim, e eu ainda não sou capaz de conseguir explorar meus
próprios sentimentos.
Mais uma vez fui capaz de deixar elementos importantes da minha vida
para trás, deixando inacabado aquilo que eu tanto ansiava ter um apropriado
final. Restou nosso quebra cabeça montado pela metade, pois faltou-nos coragem
para termina-lo. Sobressaiu-se o temor de que no término tudo desmoronasse com
um simples sopro do vento.
O fim fora inevitável em nossas vidas, por mais clichê ou assustador que
pudesse nos parecer.
Porém como eu já relatei, é novamente em você que eu me procuro. O corpo
ao meu lado não consegue captar minha atenção; o resto da minha vida fora algo
contado como uma meia verdade; o sentimento de abandono todas as manhãs ao
abrir as pálpebras dos olhos e me deparar com alguém que não é você.
Eu corro, fujo, abandono, deixo todo o meu presente para trás – nas
esquinas viradas às pressas e no caminho percorrido ofegante.
Meu convite: a porta semiaberta. Você sabia ou esperava ansiosamente
pelo meu retorno. Penso assim para que possa me desculpar pelo impulso que me
acometeu nesse dia. Antigamente, minha volta seria nos tempos mais difíceis,
hoje percorro essa trilha por qualquer motivo. Está virando um hábito, um
vício, uma luxúria.
Você está solitária e estonteante como a primeira vez em que te vi. O
rosto pálido, os olhos inquietos e aflitos, a boca crispada, o pé pendido ao
lado da cama, em um gesto de tentativa de fuga. Você não conseguira
recuperar-se dos tempos de “ouro” da sua vida. Ficara amarga, recolheu-se junto
a tristeza e guardou o coração como um bem que fosse somente seu. Suas chances de
amar alguém saíram pela porta junto a mim naquele fatídico dia.
Seu coração aberto fechou-se; seu corpo quente esfriou-se.
Encaro-a, fixamente, aguardando por um sinal de redenção. Você
devolve-me um olhar de caráter acusatório. Ambos têm noção de que é errado – o
Mundo sabe que é errado -, mas nos damos o luxo de cometermos esse insano
pecado. Por ser um pecado de natureza íntima e tão irresistível, jurei a mim e
ao meu bom Deus que aquele seria o único pecado que eu cometeria, para que
pudesse repeti-lo tantas vezes fossem necessárias e queridas.
Seu gélido olhar desfaz-se aos poucos. Uma chama escondida revive
fazendo seu rosto enrubescer, como o início do pôr do sol que costumávamos
assistir. Beija-me ardentemente como se eu pudesse desaparecer.
Horas já se passaram e eu volto a
deitar nos lençóis errados. Silenciosamente, dorme uma loura ao meu lado. Nas altas
horas da noite eu retornei a minha casa e ela nem ao menos teve a ousadia de
perguntar-me aonde fui. Dorme profundamente como um anjo, porém não possui o
toque angelical que eu reconheço em você. Você era o anjo mais pecaminoso que
eu tivera o prazer de conhecer e percebo cada vez mais o toque do inferno nas
suas veias.
Sinto-me angustiado por não estar ao seu lado. Sento-me devagar,
relembrando os momentos que há pouco me foram roubados.
Meu cérebro me avisa que minha cama já está ocupada, mas meu coração
cisma em pensar que está vazia. Eu não fui capaz de cumprir a promessa de
somente te pertencer. Sentia-me sujo, não por trair aquela que, teoricamente,
eu pertencia. Mas por trair aquela por quem eu disse pertencer.
Erramos ao não lutarmos pelo o que queríamos. Fomos medrosos e não
admitimos.
Encontro-te todos os dias durante o trabalho. Você está impecável com as
roupas passadas, o cabelo arrumado e a mesma máscara que você usa para cobrir
seu verdadeiro eu.
Eu sei que
você estará lá, e que em vários momentos nos encontraríamos para sussurrar
palavras que não poderiam ser ditas em uma sala de trabalho.
Porém, naquele dia você me pegara desprevenido. Eu não acreditava que
aquilo pudesse acontecer.
O anel em sua
mão esquerda brilhava tanto quanto os seus olhos. Você arranjava outro alguém,
alguém com quem verdadeiramente pudesse partilhar sua vida.
Não suportei ir ao seu casamento. Pela segunda vez eu te perdera e não
possuía forças para sequer te encarar. Estávamos separados por nós mesmos.
Não tivemos um
comportamento digno durante anos, não respeitamos ninguém, mas mesmo nos
condenando eu não sabia como aguentar te ver nos braços de outra pessoa. Agora
eu sabia como você se sentira.
Eu começara a
sair mais tarde do trabalho com a esperança de que algo pudesse mudar ou voltar
a ser como era. Se eu pelo menos pudesse voltar no tempo...
Você deveria
estar em casa com sua nova família, quem sabe comemorando? A vinda de um filho
ou seu novo amor com seu companheiro?
Foi quando a
porta da minha sala foi sorrateiramente aberta. Não precisei erguer a cabeça
para saber que era você.
Senti-me novo
pelo que seria a última vez.
Quando consegui reunir coragem para erguer o rosto e encarar-te, eu
entendi...
Você era o meu anjo pecaminoso.
Eu era seu diabo angelical.
Seria assim para sempre.
Nenhum de nós resistia a esse pecado.